Democracia é para os fortes

Por Vilmar S.D. Berna*

Rótulos são para os fracos que tentam fugir do debate por que não tem argumentos.

É exatamente do encontro com quem me desafia, me confronta, me contradiz - claro, respeitosa e elegantemente - que tenho a chance de exercitar melhor minha capacidade de argumentação, onde meus valores e conhecimentos terão de ser testados, e posso sair do debate melhor do que entrei, posso aprender, posso mudar, posso ajudar o outro a aprender e a mudar também se ele quiser.

Quem pensa diferente de mim não é meu inimigo. Apenas é uma pessoa que pensa diferente de mim. Não é mais importante que eu por isso, nem eu mais importante que ela.

Não sou obrigado a ganhar todas as discussões, não tenho pretensões de ser dono da verdade ou da razão, pois várias vezes já estive errado. Muito menos me sinto na obrigação de convencer ninguém, especialmente se já estiver convencido ou se recebe benefícios e vantagens em não se deixar convencer. 

Numa democracia existem mecanismos para arbitrar as diferenças. Somos livres para pensar o que quisermos, mesmo que contrarie as próprias leis, mas nossas ações são limitadas pelas leis. Ou sofreremos as consequências.

Sim, certas diferenças são duras de suportar e nos testam aos limites. Entretanto, não mudam o fato de que o pensamento é livre, enquanto a expressão desse pensamento, e principalmente as ações que podem resultar dele, precisa se subordinar as leis. Pedófilos, torturadores, machistas, racistas, são o que são, livres, mas responsáveis legalmente por suas palavras e ações.

A democracia, apesar de todos as suas fragilidades, é um regime de fortes, da força da lei sobre a vontade de grupos ou indivíduos. Diferente de ditaduras - a esquerda ou a direita -, em que a verdade é uma só e a liberdade do contraditório pode ser confundida com subversão ao ditador de plantão.

Na democracia, temos o direito igual de sermos diferentes sem sermos discriminados por isso.

Não existe meia liberdade. Se quero ser livre e exercer meus direitos de pensar e ser diferente, preciso aceitar e aprender a conviver com a diferença do outro, goste ou não. 

Não posso exigir que alguém goste de mim, de minhas idéias, mas posso e exijo respeito.

O mundo seria um lugar muito chato se todos pensassem igual. 

A natureza ensina, onde existe biodiversidade existe vida. 

Como no jogo de futebol, as palavras e as ideias são como a bola, que passamos para outro. As vezes resulta em gol, as vezes precisa começar tudo de novo do início. Se todos jogassem no gol, não teria jogo.

Precisamos de uma educação desde o início, em que nossas  crianças sejam estimuladas a lidar com os diferentes e a debater sobre as diferenças.

Ninguém nasce sabendo ser democrático. Democracia  precisa ser aprendida  desde a família, na escola e na sociedade inteira. A vida toda. O tempo da censura não tem lugar nas democracias. Também não existe espaço nas democracias para o "cala a boca, você sabe com quem está falando? Quem manda aqui sou eu!", muito menos para 'zoacao' ou 'trote' como ritual para ser admitido pelo grupo.

*Vilmar S.D. Berna é escritor e jornalista. Fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental. É editor desde janeiro de 1996 da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.

 

Ninguém nasce sabendo ser democrático

Ninguém nasce sabendo ser democrático, sabendo dividir, respeitar diferenças e direitos. Estes serão aprendizados de uma vida toda.

Uma sociedade democrática não é feita de suas leis e instituições. Estas são apenas abstrações jurídicas, só existem no papel.

Uma sociedade democrática nasce das lutas pela cidadania e pela democracia, e é feita por pessoas e pelo que essas pessoas escolheram convencionar entre si, e também pelos seus representantes - que fazem e fiscalizam as leis em nome de todos.

Numa democracia nenhum indivíduo, por mais importante que seja, pode estar acima das leis. Por isso, os que são escolhidos para fazer as leis e fiscaliza-las, em nome de todos, merecem tanta importância. Entretanto, a ação democrática não se esgota apenas com a transferência de poder, com o voto na urna, mas vai além disso. Ser democrático é um estilo de vida, uma forma de escolher estar no mundo e fazer a diferença. Alguns escolhem ser totalitários, donos da verdade, ditadores, outros escolhem o contrário, aceitam as diferenças de opinião, de idéias, como um fato natural da vida.

A democracia é viva. É um exercício de cidadania, uma construção de nossa própria personalidade. Alguém que viva numa democracia mal compreende o que é viver numa ditadura, e vice-versa, tão diferente são tais realidades e visão de mundo.

Considerando que não existe um único indivíduo igual ao outro no universo, o que temos de comum uns com os outros são mais nossas diferenças que nossas semelhanças. Então, parece ser de bom senso aprendermos a conviver com as diferenças, aprender a negociar conflitos, reconhecer até onde vão nossos direitos e onde começam os dos outros.

Somos iguais em dignidade humana e perante a lei. Fora isso, somos todos diferentes, e precisamos aprender a nos respeitar e aprender que a diferença não é um demérito, mas uma vantagem evolutiva. Sempre que um ecossistema perde sua biodiversidade se encaminha para o final. Na natureza, quando mais diversos, mais fortes, quando menos diversos, mais fracos.

Democracia é educação e treinamento, e começa na família, desde a primeira infância. Para quem tem irmãos parece mais fácil que para quem é filho unico.

Uma vez perguntaram a um especialista qual era a diferença entre educação e treinamento e ele respondeu com outra pergunta: "Você educa ou treina sua filha sexualmente?"

Famílias e ambientes totalitários (tipo, 'quem manda aqui sou eu', 'cala a boca', 'criança não deve se meter em assuntos de adultos', etc) não ajudam a formar bons democratas, assim como ambientes permissivos ('passar a mão por cima') também não.

Nem sempre é fácil.

Às vezes, diante de certas diferenças, a distância parece ser a melhor estratégia. Às vezes, não.

Aprender a ser tolerante, a respeitar as diferenças - mais que uma medida de bom senso ( pois para ser respeitado também precisamos saber respeitar ), é uma estratégia de  ampliar nossas redes de relações para muito além dos que pensam como nós, torcem pelo mesmo time, abraçam as mesmas causas políticas e ideológicas.

Os diferentes de nós nos acrescentam, nos desafiam a pensar, a melhorar nossos argumentos, nos ajudam a apreciar a vida sem julgar, sem desejar que o mundo seja a nossa imagem e semelhança, ampliam nossos horizontes.

Entretanto, uma sociedade democrática pressupõe escolhas, decisões, e para decidirmos, precisamos, por um lado, de informações e, por outro, de valores.

Um caçador, por exemplo, pode possuir mais informações sobre a fauna e seu comportamento que muitos ambientalistas, mas não usa estas informações para preservar a fauna, mas para extingui-la.

O desafio para uma sociedade democrática e sustentável, é oferecer informações ambientais verdadeiras, mas, ir além disso, e também oferecer valores a serviço da vida e da sustentabilidade.

*Vilmar S.D. Berna é escritor e jornalista. Fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental. É editor desde janeiro de 1996 da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.

O Cristão deve ser o primeiro a cuidar do Meio Ambiente??


Primeiro devemos pesquisar profundamente o que a Bíblia realmente ensina desde a criação de tudo por nosso DEUS que é soberano sobre todas as coisas, isso começa lá em Genesis onde nos mostra como foi criada toda a natureza que é nosso meio ambiente e foi nos dada a responsabilidade em relação a ela. por isso não há desculpas para que não seja cuidada obrigatoriamente por nós Cristãos. A responsabilidade vem no ato da criação do Homem – Genêsis 1: 26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Desta forma temos que arregaçar as mangas e corrigir os erros do nosso precário entendimento e agir de modo coerente e tornarmos realmente guardiões e protetores da terra pois essa missão nos foi dada pela vontade de Deus para agirmos em defesa da natureza e agir baseados no conhecimento que está na palavra. Leia e releia com atenção se Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves dos céus e todos os animais que rastejam pela terra”. Deus disse: “Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animando de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas”, e assim se fez (Gn 1,28-30). Em razão da FLORA em Deuteronômio (20,19-20) fala da proibição do desmatamento de árvores frutíferas para ações na guerra: “Versículo -19 - Quando sitiares uma cidade por muito tempo, pelejando contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo, metendo nele o machado, porque dele comerás; pelo que não o cortarás, pois será a árvore do campo algum homem, para que fosse sitiada por ti? No versículo -20- Mas as árvores cujos frutos souberes não se comem, destruí-las-ás, cortando-as; e, contra a cidade que guerrear contra ti, edificarás baluartes, até que seja derribada.” O Desafio do Cristão é buscar o que está na Bíblia e aplicar no nosso Dia a Dia, todos nós devemos fazer uma reflexão em cima do que estamos fazendo em benefício do planeta e do que podemos melhorar. Nossa responsabilidade perante a missão dada por Deus a nós tem que ser prioridade.

Meio Ambiente - Melhor não Pecar

Eu me deixarei encantar pelos cantos dos passarinhos, desde que livres, e pelo perfume das belas flores.
Então, vou avaliar as minhas atitudes em relação aos recursos naturais, procurando me informar para ser mais conscientemente responsável. Não quero ser um poluidor, não quero ser um destruidor, não quero ser um assassino, não quero ser um perdulário (gastador) dos recursos que Deus colocou sob minha administração. A solução da crise ambiental passa pela aceitação do senhorio de Jesus Cristo e inclui uma atitude responsável para com o meio ambiente por parte daqueles que o aceitam. A preocupação com a terra deve ser parte do testemunho com cristão.

Por isto, não vou desperdiçar água, no banheiro, no jardim, na calçada, na garagem. A água não é inesgotável. De toda a água da terra, 97% são água do mar; apenas 3% são água doce. Desses 3%, apenas 22.4% podem ser consumidas pelos seres humanos, embora nem toda seja potável. A propósito, 12% da água doce superficial da terra estão no Brasil. Fiquei sabendo que um banho de ducha por 15 minutos, com a torneira meio aberta, consome 243 litros, mas se eu fechar o registro enquanto me ensaboa, diminuindo o tempo de banho para 5 minutos, o consumo cai para 81 litros. É difícil mudar, mas vou me esforçar para usar a água como uma bênção de Deus e bênção de Deus não se desperdiça. Não quero pecar.

Não vou desperdiçar energia, seja elétrica ou de qualquer outra fonte. Não sairei de casa (ou do meu quarto) e deixarei a(s) luz(es) acesa(s). Não quero pecar.
Não vou descarregar na atmosfera o ozônio que eu puder não descarregar. Não quero pecar.

Não vou desperdiçar alimento, pondo no prato só que eu devo e posso comer, em casa ou no restaurante. Mesmo que possa pagar por mais que comida que devo, pagarei a que puder comer. No restaurante, a comida que sobrar levarei para casa ou para doar a alguém. Não quero pecar.
Não vou jogar lixo (copo, papel, garrafa, objetos) na rua, na praça, no parque, no ônibus, no trem, no rio ou na praia. Quero a calçada limpa para quem caminhar depois de mim. Quero o rio limpo para que as águas corram para outro rio ou para o mar. Quero a praia limpa para quem vier amanhã. Se tiver algum objeto que me sobre, vou doar para uma pessoa concreta; não vou joga-lo na rua. Não vou sujar o que puder não sujar, para que mais água não seja gasta para limpar o que já poderia estar limpo. Não quero pecar.
Não vou apertar a buzina do meu veículo, a menos que seja realmente necessário. Não vou poluir o ar com meus sons, sejam buzinadas, músicas ou gritos.
Não vou usar o papel como se ele não viesse de árvores derrubadas, porque sei que precisamos de sacrificar uma árvore para ter 62,5 quilos de celulose. Se puder, darei preferência a papel reciclado.

FONTE: www.prazerdapalavra.com.br

CRÉDITOS DE CARBONO???

CRÉDITOS DE CARBONO PARA QUEM?

ARTIGOS

Não basta ensinar ao ser humano uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. (Albert Einstein)

Por Amyra El Khalili

Lidando diretamente com as grandes especulações internacionais e conhecendo a fundo esse jogo em que tanto se ganha quanto se perde em milhões num mesmo dia, passamos a estudar a relação direta entre as guerras e o mercado financeiro: observe a cada vez que as cotações do ouro, petróleo e moedas oscilam bruscamente, estoura uma guerra em algum lugar. Quando alguns poucos estão ganhando muito dinheiro de um lado, proporcionalmente estão morrendo milhares do outro. São questões que envolvem o ambiente político-econômico e o desenvolvimento sustentável. Portanto, sustentabilidade representa novos desafios, dentre eles o de fazer valer a ética nas macrorrelações econômicas, fator determinante entre guerra e paz.

“Em longo prazo estaremos todos mortos!” — esta frase de Keynes tornou-se um mantra entre os operadores de commodities e derivativos (derivado de ativos) nos mercados de capitais.

Durante anos treinamos os garotos para que seus negócios fossem rápidos, com resultados de curtíssimo prazo já que, em longo prazo estaríamos todos mortos. Agora projete esta frase no imaginário destes brokers para operações que envolvem 30, 40 até mesmo 200 anos, pois mitigar (reduzir a poluição) não acontece da noite para o dia.

Meio ambiente tem outra lógica. Afinal, precisamos preservar para as presentes, e principalmente para as futuras gerações. No entanto, esta lógica não bate com a matemática de um sistema que convencionou comprar de manhã e vender à tarde. Tudo é muito rápido. E o mundo das finanças gira “zilhões” que sequer têm tempo de compensar seus cheques.

Acontece que “sustentabilidade” há infinitas variáveis que vão, desde as mudanças climáticas, até os interesses políticos e financeiros para troca de energias, matrizes fabris e critérios de padronização (certificação, classificação, logística, entre outros) de produtos agropecuários e industriais. Transformações de posturas e comportamentos por parte da sociedade que envolve um profundo debate sobre produção e consumo proativo, consciência ecológica e social, que aliados à discussão em políticas públicas exigem reformas tributárias e fiscais consideráveis, bem como uma rigorosa regulamentação do sistema financeiro que se adapte a todas estas condições.

Na América Latino-Caribenha encontramos a maior biodiversidade do planeta. Temos, ainda, água abundante e terras férteis, que os outros continentes já não têm. Contudo, as mesmas preocupações que os árabes têm com as guerras no Oriente Médio poderão ser as nossas, justamente por conta da escassez da água.

Em Cochabamba, houve convulsão social por causa da água. No Uruguai foi necessária uma reforma legislativa para que ela voltasse às mãos do governo e da sociedade, pois foi privatizada e, no Espírito Santo, aqui no Brasil, foi registrado um dos primeiros casos de morte por disputá-la. Ora, a água é um recurso natural de uso público chamado bem difuso; pertence, pois, a todos e à Nação. A iniciativa privada não pode simplesmente cercar uma bacia hidrográfica e dizer-se dona dela. Antes de tudo, deve-se prover água suficiente para a população, para os seres vivos e para garantir a segurança alimentar (agricultura). Somente seu excedente poderia ser comercializado, em hipótese, se garantida à segurança hídrica.

Outro problema a ser tratado é o de nossa cultura de servidão ao sistema financeiro internacional, essa aceitação passiva de uma subserviência que nos torna sempre vítimas da usura do capital, que só faz fomentar a corrupção endêmica que infelizmente nos assola.

Não se resume, portanto, no interesse financeiro de alguns investidores em aplicar seus recursos num instrumento econômico que venha a lhes compensar, por exemplo, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera com a compra e venda de créditos (emission trading). Passa por uma ampla adaptação do conhecimento e informação disponibilizada para que todos possam acompanhar estas alterações econômico-financeiras. Deve-se compreender que aquilo que se deseja eliminar — os gases do efeito estufa — não pode gerar um mercado exponencial que seja competitivo para estimular a produção de mais poluição.

Analisar o desenho mercadológico e criticar acordos internacionais, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo em sua estrutura operacional, o da execução financeira, não significa condenar o Protocolo de Quioto ao fracasso, mas apontar suas possíveis falhas. Poucos são os que podem criticar esse mecanismo porque, em geral, quem conhece engenharia de projetos não conhece o mercado financeiro, e quem conhece o mercado financeiro, sequer sabe ainda o que é gestão ambiental.

Quando lidamos com meio ambiente não podemos tratar deste direito fundamental como se fosse um produto empresarial, uma mercadoria, negociado com base em contratos e regras determinados a portas fechadas em reuniões entre pares. Pelo contrário, tais negociações devem acontecer com o coletivo da sociedade. Se a sociedade não aderir, não há projeto socioambiental que possa ser concretizado.

Quando exportamos soja, vendemos também solo, água, energia, biodiversidade, sangue e suor dos que produzem e sofrem com o sol inclemente na imensidão das lavouras. O estudo da ONG WWF, mostra o Brasil como líder do ranking dos países importadores de “água virtual” agrícola: exporta 91 bilhões de metros cúbicos por ano, mas importa 199 bilhões. O saldo é uma importação líquida anual de 108 bilhões. Por outro lado o WWF afirma que o Brasil gasta 5,7 bilhões de metros cúbicos anuais de água na produção de mercadorias que serão consumidas na Alemanha, principalmente café, soja e carne. Esse requisito não é considerado como dado formal nos critérios de padronização para a compra e venda de commodity, exemplificando, cada tonelada de soja vendida implica o uso de duas mil toneladas de água.

A rica diversidade dos nossos vários ecossistemas é o lastro de um novo modelo econômico para América Latina e o Caribe. Para isso, faz-se necessário que atuemos junto às bases, com pessoas que não têm acesso à internet, que não recebem fácil informação, posto que vivem em áreas afastadas, ou em locais onde há exclusão social. Nosso trabalho consiste, ainda, em conscientizar essas populações para que não sejam tolas presas nas mãos dos especuladores, que as levam a assinar contratos absurdos de modo a melhor explorar suas riquezas e matéria-prima.

Crimes ou créditos ambientais?

O mecanismo de compensação fundamentado no princípio poluidor-pagador, rediscutido na 15ª Conferência das Partes das Nações Unidas – Copenhagen 2009 (COP-15), conhecido pela sigla REDD, estabeleceria, a princípio, a regulamentação de um mercado para os créditos relativos à preservação e recuperação florestal, já que as matas absorvem gases do efeito estufa quando estão em pé, e liberam carbono quando são derrubadas. A COP-15 não conseguiu chegar a um acordo sobre as metas de emissões, resultando apenas em polêmica “Carta de intenções” que delineou a formação de um fundo de US$100 bilhões proposto pelos EUA, a ser baseado em recursos públicos e privados, ecoando a posição dos países desenvolvidos de que estes mecanismos de mercado devem ser considerados no financiamento das metas que forem estabelecidas. Este é um dos pontos de divergência com os países em desenvolvimento, que não querem uma parcela significativa dos recursos do mercado que, por natureza, é volátil e instável, como a última crise financeira demonstrou.

Segundo agente da Interpol, Peter Younger à Reuters, durante uma 13ª Conferência das Partes das Nações Unidas – Bali 2007 (COP-13), possíveis fraudes incluiriam a reivindicação de créditos por florestas inexistentes ou desprotegidas.

Se você vai comercializar qualquer ‘commodity’ no mercado aberto, está criando uma situação de lucro e prejuízo. Haverá um comércio fraudulento de créditos de carbono. No futuro, se você está administrando uma fábrica e precisa desesperadamente de créditos para compensar suas emissões, haverá alguém que poderá fazer isso acontecer para você. Absolutamente, o crime organizado estará envolvido... Começa com suborno e intimidação de autoridades que podem impedir seu negócio. Aí, se houver nativos envolvidos, há ameaças e violência contra essas pessoas. Há documentos forjados. (Peter Younger, especialista em crimes ambientais da Interpol – Polícia Internacional)

Uma reportagem da Associated Press da Austrália (AAP) viajou pelo interior da Papua Nova Guiné e descobriu que mais de 500 camponeses compraram certificados falsificados com a promessa de grande retorno financeiro. Outros foram convencidos a venderem seus direitos de exploração de créditos de carbono florestais.

Os escândalos envolvendo REDD no país tiveram início quando o sobrinho do primeiro-ministro Michael Somare foi acusado de forçar pequenos proprietários de terras a vender seus direitos sobre as matas.

Uma investigação do Financial Times em 2007 descobriu grandes falhas nestes mecanismos, denunciando que as organizações estavam pagando por reduções de emissões que não estavam ocorrendo. Enquanto isso, outros estavam obtendo grandes lucros com o comércio de carbono de forma suspeita. O Financial Times encontrou:

  • Muitos casos de pessoas e organizações comprando créditos sem valor que não produzem nenhuma redução de emissões de carbono.
  • Indústrias lucrando apesar de fazer muito pouco — ou ganhando créditos de carbono com base em ganhos de eficiência com os quais já se beneficiaram substancialmente.
  • Corretores fornecendo serviços de valor questionável ou sem valor.
  • Uma escassez de auditoria, o que dificulta para os compradores avaliarem o verdadeiro valor dos créditos de carbono.
  • Empresas e indivíduos estão arcando com a despesa da compra privada de permissões de carbono da União Europeia, que despencaram de valor por não resultarem em redução de emissões.

Agentes alfandegários prenderam nove pessoas na região de Londres, sob a suspeita de uma fraude de vários milhões de dólares no comércio de autorizações para emissão de carbono. A fraude carrossel, também conhecida como o esquema do corretor desaparecido, explorava o comércio, isento de alguns impostos, entre países. Estelionatários importavam bens isentos, vendiam-nos, com o imposto embutido no preço, à outra companhia que, então, os reexportava. Em vez de repassar o imposto recolhido ao governo, os vendedores embolsavam o valor e desapareciam.

As prisões confirmaram temores de que estelionatários — operando nos pregões da Europa e nas florestas tropicais — estavam sendo atraídos para um mercado que já movimentava mais de US$100 bilhões.

Quando a União Europeia (EU) lançou seu esquema de comércio de emissões para combater as mudanças climáticas, o bloco provavelmente não considerou a hipótese de que poderia eventualmente fornecer um incentivo para poluir. Um excesso de permissões (créditos de carbono) foi feita e os baixos preços derrotaram o propósito original do esquema. O resultado disso foi o crescimento das importações de carvão para a Europa, com a Inglaterra chegando a importar volumes recordes em 2007.

O preço era é muito mais barato para as usinas queimar carvão e comprar as permissões para poluição, do que comprar combustíveis mais limpos como o gás natural. Estimava-se que uma usina poderia comprar carvão €10 por megawatt/hora mais barato do que o gás. Mas o mecanismo foi desenvolvido para incentivar as grandes indústrias e usinas de energia a substituir suas fontes de energia altamente poluidoras como o carvão por combustíveis mais limpos, como o gás.

Para a geógrafa italiana Teresa Isenburg, professora do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade de Milão, que há décadas se debruça sobre as relações internacionais que envolvem o meio ambiente, o Protocolo de Kyoto foi inócuo para deter o aquecimento global. Teresa afirma que o documento assinado em 1997 na cidade japonesa acabou atendendo somente os interesses do mercado financeiro, o que pode ser percebido na União Europeia, onde os impactos do tratado deveriam ser mais sentidos.

Há que se compreender que sem um debate aberto e participação da sociedade para que ocorram decisões democraticamente “sustentáveis” não é possível construir alternativas à economia de mercado e novos modelos de gestão financeira.

Quando chegamos às comunidades e falamos ao indivíduo comum, no sentido de melhor orientá-lo, aos poucos vamos inibindo a ação predatória dos grandes especuladores, oportunistas e estelionatários. A única forma de mudar esse modelo econômico deteriorado e disseminado pelo mundo é com mobilização. Mas para isso é preciso uma nova consciência que tenha como base o tripé educação, informação e comunicação. É preciso torná-la, ainda, didática para que a sociedade possa pensar melhor seus fatos.

Para acabar com a autofagia financeira, com a degradação ambiental e injustiças sociais é preciso levar aos cidadãos comuns orientação transparente e isenta, para que cada um saiba melhor se defender e decidir seus caminhos verdadeiramente sustentáveis!

Notas:

  1. MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Constitui-se no protocolo de um tratado internacional com compromissos mais rígidos para a redução da emissão dos gases que agravam o efeito estufa, considerados, de acordo com a maioria das investigações científicas, como causa antropogênica do aquecimento global. Discutido e negociado em Quioto no Japão em 1997, foi aberto para assinaturas em 11 de dezembro de 1997 e ratificado em 15 de março de 1999. Sendo que para este entrar em vigor precisou que 55% dos países, que juntos, produzem 55% das emissões, o ratificassem, assim entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005, depois que a Rússia o ratificou em novembro de 2004. <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/3881.html>; <http://cdm.unfccc.int/index.html>.
  2. REDD - Mecanismos de compensação para a Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação de Florestas.
  3. O conceito “água virtual” foi criado em 1990 pelo cientista inglês John Anthony Allan. O termo leva em consideração o volume de água utilizado, o quanto do recurso evapora ou fica poluído nos processos de produção. A confecção de um par de sapatos de couro, por exemplo, consome 8 mil litros de água. A produção de um hambúrguer, 2,4 mil litros. O cultivo de algodão suficiente para fabricar uma camiseta consome 4 mil litros do recurso. Cada quilograma de açúcar contém aproximadamente 1,5 mil litros de água virtual.
  4. Conferência das Partes (COP) - Mais de 150 Estados assinaram a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima em junho de 1992 na “Cúpula da Terra”, no Rio. Reconhecendo, assim, a mudança do clima como “uma preocupação comum da humanidade”. Eles se propuseram a elaborar uma estratégia global “para proteger o sistema climático para gerações presentes e futuras”. Os governos que se tornaram Partes da Convenção tentarão atingir o objetivo final de estabilizar “as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica (provocada pelo homem) perigosa no sistema climático.” A Convenção fornece um “quadro” dentro do qual os governos podem trabalhar juntos para desenvolver novas políticas e programas que terão grande implicação na forma como as pessoas vivem e trabalham. É um texto detalhado, negociado com cuidado, que reconhece as preocupações especiais de diferentes grupos de países. Ao tornarem-se Partes da Convenção, tanto os países desenvolvidos quanto os em desenvolvimento assumiram certo número de compromissos. O chamado “Acordo de Copenhague” foi aprovado no dia 18 de dezembro de 2009 com relutância e sem unanimidade, como exige o procedimento das Nações Unidas. Saiba mais em: <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/49272.html>.

Referências:

ÁVILA, Fabiano. Fraude com REDD é investigada em Papua Nova Guiné. CarbonoBrasil, 14 set. 2009.

CREAGH, Sunanda. Créditos florestais podem atrair crime organizado, diz Interpol. Reuters do Brasil, 29 maio 2009.

EL KHALILI, Amyra. Commodities ambientais em missão de paz: novo modelo econômico para América Latina e o Caribe. São Paulo: Nova Consciência, 2009. 271 p.

EL KHALILI, Amyra. Mecanismo de desenvolvimento limpo: uma análise econômico-jurídica da questão ambiental. In: Congresso de Direito e Engenharia Ambiental: Meio Ambiente, um direito fundamental, 1., 2007, Vitória. Fórum de Direito Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 7, n. 37, jan./fev. 2008.

EL KHALILI, Amyra. O meio ambiente chegou ao mercado. Revista ESPM, v. 17, ano 16, n. 1, jan./fev. 2010.

HARVEY, Fiona; FIDLER, Stephen. Esquema de comércio de carbono freqüentemente não é tão verde. Financial Times, 26 abr. 2007.

MANGINI, Daniela. Relatório do WWF aponta o Brasil como maior importador de água virtual do mundo. Revista Online, São Paulo, set. 2008.

MARTINS, Jomar. Democracia chega às exportações. Revista TerraViva, edição 12, jul. 2009.

MORRISON, Kevin. Próxima fase do mercado de carbono promete ser livre de anomalias. Financial Times, 13 fev. 2007.

PALMEIRA, Vivian. Colaboração e entrevista de Léia Tavares. Todos podem fazer a diferença. Revista Universo Espírita, n. 57, set. 2007.

PONTES, Nádia. Brasil é o maior exportador de “água virtual” para a Alemanha, 04 ago. 2009.

REYNOL, Fábio. Carbono como commodity. Agência FAPESP, 23 jul. 2008.

TAVARES, Léia. A estratégia é mudar o sistema. Revista Nova Consciência, n. 3. dez. 2007.

Associated Press. Europa desvenda primeira grande fraude com crédito de CO2. O Estado Online, 21 ago. 2009.

Amyra El Khalili é professora de economia socioambiental e editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras.

Publicado em espanhol em:

https://www.rebelion.org/noticia.php?id=237656

http://plataformadistritocero.blogspot.com.br/2018/02/creditos-de-carbono-para-quien.html

http://www.sul-sur.com/2018/02/creditos-de-carbono-para-quien.html

https://www.alainet.org/es/articulo/190934

http://base10.com.br/creditos-de-carbono-para-quien/

http://operamundi.uol.com.br/dialogosdelsur/creditos-de-carbono-para-quien/19082017/

http://africando.org/ong/prensa-para-pensar/creditos-de-carbono-para-quien/

http://www.prensaindigena.org/web/index.php?option=com_content&view=article&id=25431:mundo-creditos-de-carbono-para-quien&catid=86&Itemid=435

http://www.biodiversidadla.org/Portada_Principal/Documentos/Creditos_de_Carbono_para_quien

 

 

Desejamos a todos um ano de 2018 abençoado, a Graça do Pai nos basta.

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